Após todo esse tempo priorizando os recentes lançamentos do
Q Studius, enfim consigo uma folga pra retomar a árdua missão de falar a respeito de todas as adaptações quadrinhísticas para o cinema.

Quando foi anunciado que o diretor do aguardadíssimo “novo” longa-metragem do Golias Esmeralda seria o badalado chinês
Ang Lee, foi quase unânime a opinião de que essa seria uma excelente obra de arte e ação em forma de arrasa-quarteirão hollywoodiano. O público que na época vinha acompanhando as produções oriundas das
HQs para as telonas não parecia ter nada a temer já que
Blade, X-Men, e
Homem-Aranha, já haviam obtido sua chance de migrar para a película com um considerável grau de competência.
A única dúvida dizia respeito à dificuldade de imaginar de que forma a tecnologia CG seria empregada nesse filme. Mas com relação a isso a escolha da Industrial Light & Magic para ficar responsável pelos efeitos especiais só serviu para garantir um ótimo nível de qualidade.
No entanto, as bilheterias não refletiram o êxito esperado. Mas isso também não representa um veredicto quanto à qualidade de filme algum.

A verdade é que aqueles que esperavam ação ininterrupta ficaram desapontados.
Ang Lee optou por uma abordagem muito mais preocupada com a construção do lado psicológico do personagem, buscando motivações e causas, ao invés das esperadas conseqüências representadas por destruição e pancadaria.
E se isso já soa ousado para um blockbuster, o mesmo pode-se dizer da narrativa que faz uso de inúmeras câmeras de modo a possibilitar observar toda cena através de múltiplos pontos de vista, com um trabalho de edição fílmica que muito se assemelha ao que os leitores estão acostumados nos quadrinhos. Esse aspecto da construção estética impressiona e torna sempre mais dinâmicas as cenas de diálogo que permeiam a primeira hora do filme, mais voltada aos porquês que conduzem Bruce Banner à sua trágica maldição.

E é graças a esse cuidado extremo com o desenvolvimento do alter ego do
Hulk que o diretor insiste no que é um dos seus maiores equívocos no filme. A presença do pai do personagem é tão freqüente em cena que este passa a cumprir até mesmo uma função inesperada e desnecessária na história. Não satisfeito em representá-lo como catalisador emocional que desencadeia a transformação no gigante da
Marvel (o que é bastante adequado), o doutor
David Banner chega a se tornar um supervilão ao estilo
Homem Absorvente, o que apenas torna o longa-metragem mais extenso, e absurdo demais até para quem acompanha o nem sempre convincente universo das
HQs de super-heróis.
É uma pena especialmente pelo desfecho do filme, que se encaminhava para algo que, se não era inovador era pelo menos muito legal após a boa seqüência da perseguição no deserto, em que o Hulk esmaga o exército americano e ainda um pedaço de São Francisco só pra não perder a viagem.

O elenco não realiza nada impressionante, apesar de contar com
Eric Bana, Jennifer Connely (se bem que essa é digna de perdão),
Sam Elliott, e
Nick Nolte. As atuações são na maioria bastante burocráticas, em alguns casos quase no “automático”, e não chegam a merecer destaque, sendo ofuscadas até mesmo pelos bastante comentados
“Cães-Hulk”, que surgem descontextualizados em um combate inverossímil não apenas pelo enredo que era desenvolvido até então, mas também pelos efeitos especiais, que não conseguem sustentar a ilusão mesmo com o recurso de mostrar a cena o mais escura possível.

Esse é na verdade outro ponto que vale ressaltar. Apesar da esperada qualidade visual da obra, o que ficou evidente foi a incapacidade de tornar o
Hulk digital convincente o bastante. A movimentação consegue ser dinâmica e ágil, porém a textura do personagem o deixa na maioria das vezes semelhante ao protagonista da franquia
Shrek.
Ainda assim, a já mencionada cena no deserto funciona bastante bem, talvez pelo ritmo acelerado que o diretor insere não apenas por meio do combate travado entre o monstro e os tanques e aeronaves inimigas, mas também pela ótima edição, que tornam esse o ponto alto do filme, e que realmente o faz valer o ingresso.
Ang Lee já não precisa provar que é um grande diretor, e eu não afirmo isso apenas pelo reconhecimento que ele recebeu no Oscar, e sim por sua carreira permeada de bons trabalhos cinematográficos anteriores ao seu sucesso no ocidente. O resultado inconsistente nessa adaptação dos quadrinhos não faz justiça ao seu talento, mas com certeza prova que não é assim tão simples transformar personagens das HQs em live-action.
Às vezes isso ocorre de modo absolutamente inesperado, e em outras circunstâncias a obra resultante é decepcionante independente da capacidade da equipe envolvida.
Esse teria sido realmente um bom filme se terminasse uns 20 minutos antes.
Acabou sendo um filme acidentalmente abaixo das expectativas.
Infelizmente é isso.
Quanto vale:
Hulk
(The Hulk)
Direção: Ang Lee
Duração: 138 minutos
Ano de Produção: 2003
Gênero: Ação/drama